18 de jul de 2015

Carta do Rio Cachoeira aos Itabunenses


José Dantas de Andrade
Nasci magro, estreito, e, por muitos e muitos séculos, quando a natureza me forçava a transportar maior volume de água, eu tratava de engordar e me alargar pouco a pouco, destruindo os empecilhos naturais que dificultavam a minha missão.

Vi nascer tabuna a até ajudei bastante a vocês construírem essa bela cidade, muito embora não gostasse que vocês aterrassem ocupassem as minhas margens, que sempre foram o meu recurso para aliviar o peso das águas em meu leito. Por muita e muitas vezes fiz notar esse meu desgosto.

Em 1914, em conseqüência de onze dias de pesados aguaceiros em toda a zona, fui forçado a utilizar os meus domínios, causando-lhes grandes prejuízos, essa foi a minha primeira GRANDE ENCHENTE, até hoje lembrada e comentada.

Em 1927, vocês construíram sobre o meu leito a primeira grande ponte de cimento. Por muitas e muitas vezes, passei por suas fortes pilastras jogando-lhes pesados toros de madeira, tentando destruí-las. O meu maior desejo sempre foi molhar a copa daquele “chapéu” que vocês me botaram, o que somente agora consegui.

Em 1945, vocês, aproveitando as pedras do Sequeiro do Velho Roque” construíram ali uma nova ponte. Dois anos mais tarde, ou seja, em 1947, quando se registrou a minha segunda GRANDE ENCHENTE, quando por aqui passei carregando toneladas de baronesas, aquele empecilho me forçou a invadir novamente os meus domínios e os prejuízos foram grandes, principalmente para os pobres de Mangabinha, Burundanga, Bananeiras, e margens do canal.

Não obstante vocês continuaram botando empecilhos em meu leito. Atravessaram na minha garganta uma forte muralha de cimento - a barragem - e apertaram a minha barriga com um monstruoso “cinturão” que foi aquela ponte para o Bairro Góes Calmon. As minhas primeiras tentativas contra aqueles empecilhos foram feitas em 1964 e 1965. Novamente tive que utilizar meus antigos domínios e os resultados ainda estão bem lembrados. Causei prejuízo aos pobres e susto aos ricos. Nestas ocasiões, tive oportunidade de conhecer a bela Avenida do Cinquetenário, orgulho de todos vocês, tão bela, tão linda, que até fiquei com pena de estraga-la e dei-lhe apenas um “banho”.

Agora, neste fim de 1967, forçado a transportar as de todos os meus ribeiros e ribeirões, na minha MAIOR ENCHENTE de todos os tempos, tentei contra todos os empecilhos do meu leito, fui forçado a invadir novamente os meus domínios e como a carga que levava era muito pesada, causei mortes, destruições e vultosos prejuízos a ricos e pobres. Desta vez os que mais sofreram foram os ricos porque na minha passagem pela Cinquentenário, Paulino Vieira, Praça Adami, Adolfo Maron, Firmino Alves, Praça João Pessoa, Pontalzinho e Avenida Amélia Amado, estive em luxuosas alcovas, estraguei caríssimos móveis, arrastei carros, cofres, geladeiras, rádios e televisores, quebrei portas de ferro, danifiquei mercadorias, molhei sedas e cetins, encharquei cheques de bancos e notas de cruzeiro novo...

Entretanto, eu fui legal com vocês, obedeci rigorosamente às as marcas que o prefeito botou nos postes da Avenida do Cinquentenário e cumpri todas as regras de transito, pois quando eu via uma placa dizendo NÃO ESTACIONE, eu não parava, mas parei logo que cheguei à altura de uma outra placa que dizia PARE... Voltei ao meu leito.

Vocês culpem-me por tudo que fiz e que não fiz... Caluniem-me, como estão exagerando, dizendo pelos jornais, que matei mais de mil pessoas e desabriguei mais de 35 mil... Vinguem-se de mim, jogando-me toda a sujeira e podridão que deixei nas ruas. Digam que sou perverso, ladrão, assassino e destruidor. Tudo isso minhas águas levarão para Ilhéus...

Espero que todos vocês, pouco a pouco se conformem e se esqueçam do que aconteceu. Trabalhem para recuperar o que perderam, enquanto eu continuarei a ajudar-lhe a construir o que foi destruído e lavar o que ficou sujo. Espero também, que, para o futuro, fiquem prevenidos, porque, mais tarde ou mais cedo, pode a natureza me forçar a fazer-lhes uma nova VISITA.
Do Livro “Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna”, de José Dantas de Andrade, segunda edição, Proplan, Itabuna, 1986